Mulheres motociclistas. Precisamos falar sobre isso!

ana_motoHá dois meses eu tirei minha carteira de habilitação na categoria A. SIM! Eu sou uma mulher, de 23 anos, moro em uma capital e ando todos os dias de moto. SIM, isso ainda choca e resolvi fazer um post para ajudar as mulheres e alertar os homens de que esta é uma realidade possível e uma aventura incrivelmente boa.

 

Já que é pra abrir o coração, vamos começar do início. Me incomodava muito gastar quase quatro horas do meu dia no descolamento casa-trabalho-casa. Pensando em uma alternativa, logo me veio na cabeça: tiro habilitação B, compro um carro bem baratinho e começo a viver feliz e tranquila pelo trânsito. Porém, em poucos segundos caí em mim: não tenho garagem para guardá-lo, local para estacioná-lo na empresa e gastaria uma quantia não compatível com as minhas condições para sustentá-lo. Foi aí que comecei a cogitar a ideia de que comprar uma moto seria uma boa.

 

Impulsionada e incentivada pelo meu namorado – a quem devo o mérito de ter chegado ao fim dessa saga – fiz minha inscrição no Detran e comecei as aulas na autoescola. Até então, era um “segredo de estado” e só depois desta primeira etapa concluída comecei a contar para algumas pessoas que eu confio e amo. Mandei mensagem pra minha mãe: “Se você acha que é o melhor pra você, vá em frente”. Contei pra meu pai: “Preferia que você tivesse um carro, mas vá em frente e conte comigo”. Falei para alguns amigos e familiares próximos: “Moto é bem perigoso, mas estamos torcendo por você”. Ufa! Não parecia que ia ser tão difícil assim! (só que não).

 

Durante as aulas de legislação, a “professora” fazia questão de perguntar todos os dias quem ia tirar carteira de moto. Claro, eu era a única mulher a levantar a mão. Mais chocados ela e os meus colegas ficaram quando descobriram que era a minha primeira habilitação. Assustados eu os deixei quando permaneci firme na decisão, mesmo ao ver os inúmeros vídeos de acidentes, feridos e mortos envolvendo motociclistas que ela passava nas aulas.

 

Venci, fui pra aula de direção! Um pesadelo: acordava às 4h45 para fazer aula às 7h e ir para uma pista só com instrutores homens. Eles simulam estar preparados para instruir mulheres, já que tem até um número considerável de mulheres nesse processo, mas não estão. É nítido quando um menino é recebido pra fazer aula e aplaudido pelo ótimo desempenho, afinal eles nasceram quase preparados para isto. Nós, mulheres, temos que implorar pela ajuda e paciência deles para adquirir esta habilidade. Mas, calma meninas, como eles mesmos dizem: é super normal uma mulher precisar do dobro de aulas do que os homens e passar no exame lá pela terceira vez.

 

Durante este processo de aulas de direção, além do “capítulo instrutores”, outro merece destaque: muita, mas, muita gente mesmo quer opinar. Sejam seus colegas de profissão, seus parentes mais distantes ou até alguém que vê você com um capacete na rua, alguém vai querer falar alguma coisa para te desanimar. “Você é louca! Vai virar estatística”. “Infelizmente, 90% dos acidentes de moto são fatais”. “Cuidado, hein?! Quando veem que é uma mulher na moto, eles derrubam mesmo”. “Seus pais estão sabendo disso? Se fosse minha filha, eu não deixava”.

 

Voltemos ao processo. Convivi com homens machistas durante as aulas de direção e não desisti. Cai duas vezes da moto e não desisti. Continuei ouvindo esses comentários e não desisti. Fui lá fazer meu exame e passei de primeira.

 

Hoje, venho para o meu trabalho e volto todos os dias de moto. Vou ao supermercado todas as segundas-feiras fazer as minhas compras da semana, vou ao shopping “bater perna” e comecei até frequentar as farmácias e padarias do bairro. Ainda sou assediada por homens no trânsito e constrangida por não ter uma “habilidade masculina” ao pilotar, mas eu não vou desistir! Quando  me veem com um capacete e me perguntam se estou esperando a carona, meu peito se enche de orgulho ao falar: “Não, querido. A MINHA moto está estacionada ali fora”. Não, eu NÃO vou desistir!

Ana Carolina Gomes - Colaboradora

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